O sistema penitenciário do Rio de Janeiro enfrenta uma nova movimentação do crime organizado dentro das cadeias. Presos que romperam com o Povo de Israel (PVI) passaram a se organizar sob o nome de Primeiro Comando do Golpe (PCG), grupo que pode se consolidar como uma nova facção criminosa no estado.
A dissidência ganhou força após a morte de Avelino Gonçalves Lima, apontado pelas autoridades como uma das principais lideranças do Povo de Israel. O rompimento desencadeou uma disputa entre detentos e já há relatos de episódios de violência dentro das unidades, incluindo espancamentos, ameaças e incêndio em galeria.
A Secretaria de Estado de Polícia Penal (Seppen) acompanha a movimentação por meio do setor de inteligência. A estratégia é identificar os presos envolvidos na articulação do novo grupo e adotar medidas disciplinares e de segurança para evitar que a organização amplie sua influência dentro do sistema penitenciário.
Entre as providências está o isolamento de detentos apontados como envolvidos nos conflitos.
Racha foi identificado dentro de presídio
Informações sobre a disputa chegaram a documentos oficiais após uma vistoria do Conselho Penitenciário do Estado do Rio de Janeiro (Cperj) no Presídio Evaristo de Moraes, conhecido como Galpão da Quinta, em São Cristóvão.
Durante uma visita realizada em julho, integrantes do conselho ouviram relatos de presos sobre o surgimento da dissidência e os confrontos entre os grupos. Um dos detentos relatou ter sofrido fraturas em três costelas durante uma briga envolvendo integrantes das organizações.
O Presídio Evaristo de Moraes tem relação histórica com presos considerados “neutros” no sistema penitenciário fluminense. Registros sobre o Povo de Israel e grupos que não pertenciam às principais facções criminosas do estado remontam a quase duas décadas.
Povo de Israel cresceu dentro das cadeias
Diferentemente das principais facções do tráfico do Rio, o Povo de Israel construiu sua estrutura principalmente dentro do sistema penitenciário e não ficou conhecido pelo controle territorial de comunidades.
O grupo reuniu presos considerados “neutros”, que não integravam organizações como Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigos dos Amigos (ADA).
Com o passar dos anos, porém, o PVI ganhou organização e passou a ser investigado por crimes praticados de dentro dos presídios, principalmente golpes e extorsões por telefone.
Uma investigação da Polícia Civil divulgada em 2024 apontou que a organização estava presente em pelo menos 13 unidades penitenciárias. Naquele ano, uma operação contra o grupo resultou na apreensão de 120 celulares, 40 chips, três modems e um pendrive durante buscas realizadas nos presídios onde a facção atuava.
As investigações também revelaram uma estrutura organizada para a aplicação do chamado golpe do falso sequestro. Presos realizavam ligações para vítimas enquanto pessoas fora das unidades penitenciárias eram utilizadas para receber e movimentar o dinheiro obtido nos crimes.
Além dos golpes, investigadores apontaram envolvimento de integrantes do grupo com a comercialização de drogas dentro das unidades.
Nova disputa preocupa autoridades
O surgimento do Primeiro Comando do Golpe pode alterar novamente a divisão de presos dentro do sistema penitenciário fluminense. Caso a dissidência consiga aumentar o número de integrantes e estabelecer uma estrutura própria, o Rio poderá ter mais uma organização criminosa nascida dentro das cadeias.
Por enquanto, as autoridades acompanham a movimentação e tentam impedir que o racha provoque novos confrontos ou permita a consolidação do PCG dentro de outras unidades penitenciárias.

