A Justiça do Rio autorizou o Governo do Estado a assumir provisoriamente dois imóveis que teriam sido utilizados em um esquema de lavagem de dinheiro atribuído a integrantes do Comando Vermelho. A medida atinge o Várzea Country Club, em Água Santa, na Zona Norte da capital, e a Pousada Menino do Rio, em Armação dos Búzios, na Região dos Lagos.
A decisão foi assinada pelo juiz Alexandre Abrahão Dias Teixeira e atende a um pedido do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). Os dois estabelecimentos estão no centro da Operação Quimera, investigação conduzida em conjunto com a Polícia Civil para rastrear recursos provenientes do tráfico de drogas. Segundo os investigadores, as movimentações financeiras identificadas ultrapassam R$ 11 milhões.
Com a decisão, o Estado poderá utilizar e administrar provisoriamente os imóveis enquanto o processo segue na Justiça. A determinação prevê ainda que os locais recebam uma finalidade social, evitando abandono e deterioração das estruturas. A Polícia Civil terá prioridade na futura utilização dos espaços.
Clube teria sido controlado informalmente por pessoas ligadas ao tráfico
O Várzea Country Club, fundado há mais de seis décadas, fica próximo ao Morro do Dezoito. De acordo com a investigação, pessoas de confiança da organização criminosa teriam assumido informalmente atividades do clube, interferindo na realização de eventos, nas decisões internas e na movimentação de recursos, mesmo sem vínculo oficial com a direção da entidade.
A investigação começou depois que responsáveis por outro clube, o Social Clube Marabu, no Encantado, denunciaram ameaças para que deixassem a administração do estabelecimento. Segundo a Polícia Civil, criminosos também exigiam pagamento mensal de R$ 6 mil para permitir o funcionamento do local sem represálias.
Ao aprofundar as apurações, os policiais chegaram ao Várzea Country Club e identificaram um núcleo familiar que, segundo a investigação, participava da gestão financeira paralela do estabelecimento.
A retomada da posse do clube pelo Estado deverá contar com acompanhamento policial.
Pousada movimentou R$ 3,4 milhões em pouco mais de seis meses
As movimentações da Pousada Menino do Rio também chamaram a atenção dos investigadores. O estabelecimento possui 16 quartos e cinco funcionários, mas teria movimentado aproximadamente R$ 3,44 milhões em pouco mais de seis meses.
Ainda de acordo com as investigações, foram identificados mais de 600 depósitos em dinheiro vivo, que juntos chegaram a aproximadamente R$ 955 mil. Os investigadores consideraram os valores incompatíveis com a estrutura e a capacidade operacional do negócio.
Relatórios de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) também apontaram circulação elevada de dinheiro entre pessoas físicas, familiares e empresas, além de depósitos em espécie, transferências bancárias e operações fracionadas por Pix.
Para a Polícia Civil, o modelo teria sido utilizado para dificultar o rastreamento da origem do dinheiro e inserir na economia formal recursos provenientes do tráfico.
Na pousada, a transferência da administração para o Estado será realizada de forma gradual. A decisão determina a elaboração de um plano para preservar os direitos dos trabalhadores formalmente contratados e atender clientes que já tenham reservas. Entre as possibilidades estão a reacomodação dos hóspedes ou a devolução dos valores pagos.
O procurador-geral do Estado terá prazo de 30 dias para informar quais órgãos públicos ficarão responsáveis pela administração dos dois espaços.

