CV, TCP e milícia: como investigações revelam conexões do crime organizado com deputados da Alerj

Redação
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Ministério Público aponta preocupação com a presença de organizações criminosas em espaços de representação política

A operação deflagrada pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) na última quinta-feira, que teve como alvo suspeitos de ligação com o Terceiro Comando Puro (TCP), voltou a lançar luz sobre um problema que preocupa autoridades de segurança e órgãos de controle: a infiltração do crime organizado em espaços de representação política.

Nos últimos meses, ao menos três investigações distintas atingiram integrantes ou ex-integrantes da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), envolvendo suspeitas de relações com facções criminosas e grupos milicianos. Os casos têm em comum a suspeita de utilização da estrutura política para favorecer interesses de organizações criminosas.

Operação mira suspeitos de ligação com o TCP

A mais recente ofensiva teve como alvo o deputado estadual Val Ceasa (PRD) e o ex-vereador Ulisses Marins. Ambos são investigados por supostamente atuarem para impedir a demolição de um resort atribuído ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado pelas autoridades como um dos líderes do Terceiro Comando Puro.

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Durante a investigação, o Ministério Público identificou vínculos entre ex-assessores e funcionários lotados no gabinete do parlamentar e integrantes da facção criminosa. Um dos nomes apontados foi Michael Johnny Vianna de Azevedo, indiciado pela Polícia Civil em uma investigação relacionada a um homicídio atribuído a Bruno da Silva Loureiro, conhecido como Coronel, outro nome associado ao TCP.

As apurações também recuperaram mensagens interceptadas pela Polícia Federal em investigações anteriores. Em uma delas, o traficante Carlos Costa Neves, o Gardenal, encaminha ao chefe do Comando Vermelho no Complexo da Penha, Edgar Alves de Andrade, o Doca, uma fotografia de Val Ceasa durante uma reunião realizada no Palácio Guanabara, em janeiro de 2025.

Ao compartilhar a imagem, Gardenal escreveu: “Te falei, Val é o contato dele”. Em resposta, Doca afirmou: “É, mano, esse cara tem que vir para nós”.

Segundo a Polícia Federal, a troca de mensagens demonstra o interesse de organizações criminosas em estabelecer canais de interlocução com agentes políticos, buscando ampliar influência institucional e proteger interesses em territórios sob domínio de facções.

O caso TH Joias

Antes da investigação envolvendo Val Ceasa, a Operação Zargun, da Polícia Federal, já havia provocado forte impacto no ambiente político fluminense.

Em setembro de 2025, agentes federais cumpriram mandados de busca na Alerj e prenderam o então deputado estadual TH Joias. De acordo com a investigação, ele seria operador político e financeiro de interesses do Comando Vermelho.

A PF sustenta que o parlamentar mantinha relações frequentes com integrantes da facção e teria utilizado a estrutura do mandato para beneficiar o grupo criminoso. Entre os episódios investigados estão supostas negociações envolvendo drogas, armamentos e equipamentos antidrones destinados ao Complexo do Alemão.

Os investigadores também apontaram uma relação próxima entre TH Joias e Gabriel Dias de Oliveira, conhecido como Índio do Lixão. Segundo a apuração, o ex-deputado teria indicado a esposa do traficante para um cargo parlamentar e participado de articulações para viabilizar uma candidatura política ligada ao grupo criminoso em Duque de Caxias.

A prisão de Bacellar

As investigações da Operação Zargun avançaram e chegaram ao então presidente da Assembleia Legislativa.

Em dezembro de 2025, a Polícia Federal prendeu Rodrigo Bacellar sob suspeita de ter vazado informações sigilosas da operação para TH Joias.

Segundo a PF, Bacellar teria alertado o parlamentar sobre a iminência das buscas e orientado a retirada de objetos do imóvel antes da chegada dos agentes.

Os investigadores afirmam ainda que o ex-presidente da Alerj figurava como principal contato na lista de comunicação urgente de TH Joias. Na mesma fase da operação também foi preso o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, suspeito de participação no repasse de informações sigilosas relacionadas à investigação.

O precedente envolvendo Lucinha

A preocupação com a presença de organizações criminosas em ambientes políticos já havia ganhado destaque em 2023 com a operação contra a deputada estadual Lucinha.

Ela foi denunciada pelo Ministério Público juntamente com sua assessora Ariane Afonso Lima sob a acusação de integrar o núcleo político da milícia comandada por Luis Antonio da Silva Braga, o Zinho. A parlamentar nega ter cometido qualquer irregularidade.

Segundo o MPRJ e a Polícia Federal, havia indícios de participação ativa da deputada em articulações políticas voltadas ao atendimento de interesses do grupo criminoso.

A denúncia aponta a realização de pelo menos 17 reuniões entre integrantes da milícia, a deputada e sua assessora entre junho e dezembro de 2021. Alguns desses encontros teriam ocorrido nas dependências da própria Assembleia Legislativa.

As investigações apontam que as conversas tratavam de assuntos relacionados à Zona Oeste do Rio, principal base eleitoral da parlamentar e região sob influência da organização criminosa.

Alerta do Ministério Público

Ao comentar a operação da última quinta-feira, o procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, classificou o cenário como preocupante e afirmou que os fatos revelam um processo de degradação do ambiente político.

Segundo ele, a sucessão de investigações envolvendo parlamentares evidencia a tentativa de organizações criminosas de ampliar sua influência sobre instituições públicas.

“Esses fatos preocupam muito o Ministério Público do Estado do Rio porque revelam uma degradação que vem se tornando pública do ambiente político. Há alguns meses nós denunciamos e obtivemos a prisão preventiva de um deputado estadual reconhecidamente membro do Comando Vermelho, já registrando uma condenação a 14 anos de reclusão antes de ingressar no parlamento por lavagem de capitais, que inclusive integrava a Comissão de Segurança Pública da Alerj”, afirmou.

No pedido de busca e apreensão apresentado na investigação envolvendo Val Ceasa e Ulisses Marins, Moreira sustentou que, assim como o caso TH Joias revelou a infiltração do Comando Vermelho na Assembleia Legislativa, a nova apuração pode indicar que o Terceiro Comando Puro também conseguiu estabelecer influência dentro da Casa.

Para o Ministério Público, os elementos reunidos até o momento apontam para uma tentativa crescente de organizações criminosas de ocupar espaços de poder e influência política no estado do Rio de Janeiro.

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