A redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 devem provocar mudanças na rotina de mais de 2,6 milhões de trabalhadores com carteira assinada no estado do Rio de Janeiro. O número representa 72,7% dos 3,6 milhões de empregados com jornada registrada e faz parte de um levantamento divulgado nesta sexta-feira (23) pelo Sebrae-RJ.
O estudo, elaborado com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2025, do Ministério do Trabalho e Emprego, revela que metade dos trabalhadores potencialmente afetados está empregada em micro e pequenas empresas. São aproximadamente 1,3 milhão de pessoas que atuam em estabelecimentos como lojas, mercados, restaurantes e outros negócios de menor porte.
A mudança acontece após a promulgação da Emenda Constitucional nº 141, no último dia 16 de outubro. A nova regra determina o fim da escala de seis dias de trabalho para apenas um de descanso e estabelece dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução dos salários.
A implementação será gradual. A partir de 15 de dezembro de 2026, os trabalhadores abrangidos pela nova regra deverão ter duas folgas por semana, enquanto a jornada máxima passará das atuais 44 para 42 horas semanais. A redução para 40 horas está prevista para dezembro de 2027.
O levantamento do Sebrae considera trabalhadores com jornadas superiores a 40 horas semanais. Isso significa que os 2,6 milhões não necessariamente trabalham todos na escala 6×1, mas possuem contratos que poderão precisar de adaptação às novas regras.
Comércio e pequenos negócios serão os mais impactados
Entre as micro e pequenas empresas fluminenses, 80,1% dos vínculos empregatícios possuem jornada superior a 40 horas semanais. Nas médias e grandes empresas, o índice é de 66,6%.
A diferença se torna ainda mais evidente nos estabelecimentos com até quatro funcionários, onde 80,8% dos empregados trabalham acima desse limite.
Os setores com maior concentração de jornadas prolongadas são hotelaria, com 92,4% dos vínculos, comércio, com 92,2%, e construção civil, com 91,2%.
Entre as profissões com maior número de trabalhadores nessa situação estão faxineiros, vendedores do comércio varejista e operadores de caixa. Somente entre os profissionais de limpeza, o levantamento identificou aproximadamente 146,9 mil trabalhadores com jornadas superiores a 40 horas semanais.
A mudança poderá exigir reorganização de turnos e contratações em estabelecimentos que precisam manter o funcionamento durante toda a semana.
O Sebrae recomenda que os empresários aproveitem o período de transição para rever escalas, organizar processos internos, planejar despesas e avaliar alternativas para manter o atendimento aos clientes.
Jovens e trabalhadores de menor renda concentram jornadas mais longas
O estudo também mostra que a jornada superior a 40 horas é mais comum entre jovens, trabalhadores com menor escolaridade e pessoas pretas e pardas.
Na faixa etária de 18 a 24 anos, 81,8% dos empregados possuem contratos com jornadas prolongadas, o equivalente a aproximadamente 307 mil jovens.
Entre os trabalhadores que não concluíram o ensino fundamental, o percentual chega a 85,6%. Já entre aqueles com ensino superior completo, cai para 47,4%.
A pesquisa identificou ainda diferenças importantes na remuneração.
Quem trabalha mais de 40 horas semanais recebe, em média, R$ 3.158 por mês, enquanto os empregados com contratos de 40 horas apresentam remuneração média de R$ 8.098.
Essa diferença retrata o perfil dos grupos profissionais e não significa, por si só, que a jornada menor provoque aumento salarial.
Capital e Baixada Fluminense concentram trabalhadores afetados
A cidade do Rio de Janeiro reúne o maior número absoluto de trabalhadores com jornadas superiores a 40 horas: aproximadamente 1,28 milhão de pessoas.
Na capital, esse grupo corresponde a 67,1% dos empregados com carteira assinada e jornada registrada.
Proporcionalmente, a situação é ainda mais expressiva na Baixada Fluminense, onde 84,7% dos trabalhadores possuem jornadas acima de 40 horas semanais.
Em Duque de Caxias, aproximadamente 131 mil empregados estão nessa condição. Niterói aparece com 119 mil trabalhadores, seguida por São Gonçalo, com 78 mil.
Nas regiões comerciais da Zona Oeste do Rio, incluindo Bangu, Realengo e Campo Grande, a mudança também deverá exigir adaptações de empresas e funcionários, especialmente no comércio e nos serviços. O levantamento divulgado, porém, não apresenta números individualizados para esses bairros.
Para os trabalhadores, a nova legislação representa a possibilidade de ampliar o tempo disponível para descanso, convivência familiar, estudos e outras atividades pessoais.
Para os empresários, o desafio será adequar as escalas sem comprometer a continuidade das operações.
A emenda constitucional prevê uma transição gradual, permitindo que empresas e trabalhadores se organizem para as novas condições de jornada.
O fim da escala 6×1 já foi aprovado e promulgado pelo Congresso Nacional, mas as principais mudanças práticas começarão a valer em dezembro deste ano.
